“O esporte não mata, o que mata são doenças não diagnosticadas ou desvalorizadas”

Em entrevista exclusiva, o cardiologista Nabil Ghorayeb ressalta importância das análises clínicas e comenta o “caso Puerta”

Por William Correia

A morte do lateral-esquerdo Antonio Puerta, do Sevilla, no último 28 de agosto, por parada cardíaca, começou uma triste semana para o futebol e o esporte mundial. Depois do espanhol, outros oito jogadores faleceram de maneira similar. A situação voltou a levantar questões sobre como estimular a prática esportiva sem fazer com que atletas corram o risco de morte.

Para o cardiologista Nabil Ghorayeb, um dos principais nomes de sua área no Brasil e especialista em medicina do esporte, a solução é conhecida por todos: permitir a avaliação correta antes do início das atividades. Em entrevista exclusiva ao site do Dr. Osmar de Oliveira, Ghorayeb afirma que a cardiologia no esporte brasileiro está no nível das referências mundiais e explica o motivo de se optar pelo afastamento de qualquer esportista que apresentar problemas.

Ao relembrar casos antigos e conhecidos de futebolistas com problemas cardiovasculares, o cardiologista volta a demonstrar preocupação quanto ao atacante Washington, ex-Atlético-PR e Ponte Preta e atualmente no futebol japonês. Além disso, criticou o atendimento feito a Puerta no gramado. “O fato de ele ter andado (ao deixar o gramado) foi inadequado e não ajudou a salvá-lo”, apontou Ghorayeb.

Por que o número de mortes no esporte tem aumentado nos últimos anos?
NG: O esporte não mata, o que mata são doenças não diagnosticadas ou desvalorizadas. Considero sempre que a falta de controle de exames acaba levando ao risco. O fato do número de mortes súbitas ter aumentado é relacionado ao aumento no número de praticantes. Como todos querem praticar exercícios físicos, aumenta o número de problemas.

O senhor acredita que esse crescimento servirá como alerta para as pessoas?
NG: Existe o alerta, mas as pessoas nunca levam em conta. Muitos pensam “é o outro que vai ter, não eu”. Há um excesso de treinamento sem critério nenhum. Resolvem correr maratonas como se fossem visitar o shopping. Muitos esportistas amadores que poderiam fazer no máximo duas maratonas por ano fazem uma a cada três meses.

A solução para diminuir esse número de casos é a avaliação?
NG: Deve haver mais avaliação para diagnosticar o problema, para saber se a pessoa é cardíaca. Mas é importante dizer que deve ser feita com qualidade e competência, senão não adianta.

Como é feita essa avaliação?
NG: É uma avaliação cardiológica padrão, com teste de esforço, ecocardiograma e Raio-X. Esse tipo de protocolo é rotina há muitos anos, e em 85% das crianças, chegamos muito perto do diagnóstico correto.

A realização desses exames não custa muito para os clubes?
NG: Todos os clubes têm realizado. O São Paulo e o Palmeiras fazem exames todo começo de ano conosco no Sport Check-up HCor do Hospital do Coração, o Corinthians realiza dentro do clube. E no Instituto Dante Pazzaneze fazemos os exames para clubes amadores.

O senhor tem recebido muitos casos de avaliações “mal feitas”?
NG: Nos últimos anos, os grandes clubes têm feito muitas avaliações, mas começou a dar muito problema, muitos jogadores foram afastados. Percebemos que quem havia feito a análise não era cardiologista ou não tinha experiência, a avaliação ficava precária. Muitos se confundiram com o que chamamos de “coração de atleta”. No Sertãozinho, na Inter de Limeira e em outros times do interior reintegramos muitos. Mas também houve casos em que aprovamos o afastamento e tratamos até de forma mais dura.

O que é o coração de atleta?
NG: É uma adaptação anatômica e fisiológica do coração para melhorar o fornecimento de sangue para o atleta. O coração aumenta de tamanho e bate mais lento. Enquanto na maioria das pessoas ele bate em média 80 vezes por minuto, no atleta, bate 40, 50 vezes. Antes, achavam que era doença, mas não é. De qualquer forma, temos que ter certeza que é uma adaptação. Se for, o coração volta ao normal quando o atleta pára. Por isso, pedimos para ele se afastar.

Na semana em que Puerta faleceu, outros nove morreram de maneira similar jogando futebol profissional. O que fazer para evitar isso?
NG: Morrer nove em uma semana é uma tristeza que serve de alerta. A média é de 29 mortes anuais relacionadas ao esporte, e neste ano já morreram 15. As pessoas devem ter um cuidado maior. Não se pode esquecer que a parada cardíaca é o caminho final de todas as doenças. Se não for recuperada, leva à morte. E 90% das mortes súbitas são causadas por doenças cardiovasculares.

O caso do Puerta pode ser considerado morte súbita?
NG: Toda morte no esporte que ocorre menos de 12 horas depois do aparecimento dos sintomas é considerada morte súbita.

Quando o Serginho, zagueiro do São Caetano, morreu, muitos culparam o atendimento feito dentro de campo, que teria sido inadequado. No caso de Puerta, que chegou a se levantar e deixar o campo andando, o atendimento pode ser elogiado?
NG: Na verdade, o atendimento ao Puerta foi feito de modo não habitual. Ele teve uma parada cardíaca de segundos. Quando se recuperou, deveria ter sido mantido deitado
e com balão de oxigênio, e transportado de maca com o coração monitorado. O
fato de ele sair andando foi inadequado e não ajudou a salvá-lo.

O que podemos tirar de lição desta morte do Puerta?
NG: Há muitas lições. Ele não havia feito exames competentes. Teve dois desmaios em treinos e isso deveria ser altamente valorizado do ponto de vista clínico, mas não foi o que aconteceu. Deveria ter sido afastado e avaliado diretamente. É um caso similar ao do William, do Palmeiras.

A preocupação com problemas cardíacos em atletas é recente?
NG: Fazemos esse trabalho há muitos anos. Lembro que um dos primeiros médicos a nos trazer atletas para avaliações foi o Dr. Osmar de Oliveira, nos anos 70. Com certeza, ele acabou por nos incentivar a manter a novidade da ocasião, dos exames completos para atletas. Para se ter idéia, há 15 anos um garoto de 19 anos do Cruzeiro, chamado Weuler, teve um desmaio e foi afastado. Nunca mais voltou ao futebol, mas está vivo e trabalhando feliz da vida em Belo Horizonte.

E tem tido procura por exames em atletas que não estão na fase adulta?
NG: Recentemente, fizemos exames nas peneiras dos clubes. 17,7% dos garotos de até 18 anos tem problemas. Desses, 19% sofriam com problemas cardíacos e um morreu. Outros 13% foram afastados e liberados depois de tratamento.

Como está a cardiologia brasileira em relação aos outros países?
NG: Muitos países não ligam muito para isso ainda. Esse protocolo que citei é obrigatório na Itália e na Alemanha, e, nas circunstâncias atuais, certamente estamos no mesmo nível que eles, pelo menos em São Paulo. Nas outras cidades, há muita troca de informações e de questionamentos. Recebo muitos pedidos de terceira opinião pela internet, e tenho feito muitas palestras específicas para médicos. Isso é positivo.

Que comparação podemos fazer do caso do Puerta com o Washington?
NG: O Washington é um caso diferente. Eu não o deixaria jogar. Ele toma remédio para afinar o sangue, e isso não é recomendável em esportes de choque corporal. Se ele levar uma pancada, pode causar um hematoma e romper um órgão. Além do mais, tem diabete, toma insulina... Isso é perigoso para quem já teve infarto.

E como o senhor vê o argumento de que o atleta com problemas cardiovasculares pode jogar se assumir a responsabilidade?
NG: Pela lei, cada pessoa tem o livre arbítrio. Mas o contratante deve saber disso, e normalmente não se contratam esportistas assim, concorda? No caso do Washington, me parece que não levam isso muito em conta no Japão.

Esportes sem choque corporal, como a natação, por exemplo, são mais indicados para quem tem problemas cardiovasculares?
NG: Tem menos riscos. Mas deve se tomar cuidados porque tem outros fatores, como a temperatura da água, por exemplo. A água fria causa problemas cardíacos, como espasmos ou infartos.

Em resumo, quais as recomendações que o senhor faz para quem pratica exercícios físicos evitar riscos de morte?
NG: Duas coisas são muito importantes. A primeira é uma boa avaliação pré-participação básica. Todo indivíduo que pratica esporte competitivo e quer exercer esporte federado precisa de avaliação detalhada e completa. Quem não compete, apenas anda, deve procurar informação com seu médico. Se tiver fator de risco, como pressão alta e colesterol, deve fazer teste ergométrico. E para quem é doente é obrigatório avaliação cardiológica detalhada, como médico em parceria com o professor. A outra coisa importante é um atendimento de emergência bem feito. Todas as arenas esportivas devem ter os equipamentos necessários.

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